INSIDE Motherhood / Maternidade

Experiências da maternidade

As crianças – todas as crianças – passam por uma fase em que os limites da realidade e da imaginação se confundem e dizem mentiras com a maior naturalidade do mundo. Na verdade, não são mentiras. São pedaços da sua própria “realidade” forjados pela sua imaginação fértil e viva. E não há mal nenhum nisso. São testemunhos do crescimento saudável e intenso das cabecinhas dos nossos filhos.  

Coisa um pouco diferente é quando eles, as nossas criancinhas, inocentes e ingénuos e maravilhosamente arteiros, “inventam histórias” para justificar atos pouco aceitáveis e mesmo condenáveis. Curiosidade: eles próprios, os anjinhos, sabem da falta de bondade da sua própria conduta e são os primeiros a encontrar uma justificação para a mesma e aí surge a “história” deles.  

Quando temos a distância e a serenidade para ver essa “história” pelo que realmente é, ela é, não deixa de ser inocente – a maior parte das vezes – mas no momento em que nós, mães e pais, já embaraçados com a conduta menos perfeita dos anjinhos que levamos pela mão, é difícil manter o controlo e manter a calma, e alguma cabeça fria que a situação exige. Porque a falta normalmente não é grande e não é preciso extrapolar. Uma conversa bem conduzida normalmente resolve a maioria das situações e as crianças, muito mais inteligentes do que nós as consideramos as mais das vezes, reconhecem a mentira e retratam-se convenientemente. E prometem sempre nunca mais dizer uma mentira. Até à próxima ocasião, claro! E nós, maravilhosos adultos maturos e corretos, fazemos o mesmo. Não? 

Tenho histórias ótimas retiradas das vivências da minha prole.  

O meu mais novo, quando mente exagera nas pausas para pensar, e tem um bordão de fala que é um “uhma” repetido até à exaustão. Quem te conhece… 

O do meio revira os olhos, certamente para conectar melhor com a parte criativa do cérebro que arduamente elabora a patranha.  

O mais velho conta a história que não é bem verdade com um tremor no canto do lábio e, quando olhado fixamente, abre um sorriso nervoso e segue-se a costumeira pergunta: O que foi, mãe?”. 

Mas as mães e os pais também mentem. Sempre, não!,  mas por conveniência e facilidade em regra.  

Durante um breve período, muito feliz e muuuuito divertido, que coincidiu com o mais velho estudar na escola o sistema circulatório pela primeira vez, eu inventei uma história também. Eficaz e de boa memória embora o tenha sido, eficaz, apenas por um curto momento. Eu, mãe desnaturada, disse aos meus filhos que nós quando mentimos ficamos com as orelhas vermelhas. Isto porque o nosso coração, que sabe que estamos a contar uma mentira, bate mais rápido bombeando mais sangue que assim, sem ter para onde ir, se acumula nas orelhas, ficando estas vermelhas. A “história” pareceu-lhes tão convincente que os meus três filhos contavam patranhas, ingénuas, convenientes e fáceis, a tapar as orelhas. Durante algum tempo, fui obrigada a exercer um auto-controlo muito grande para não me rir a bandeiras despregadas quando os meus filhos mentiam na minha cara. 

Foi curto mas fui feliz… 

by Olga Canas

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