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Ninguém quer conversar?

Cada vez mais comunicamos uns com os outros através de dispositivos móveis em vez de fazê-lo pessoalmente, escolhemos enviar mensagens de texto e ligamos menos, e conversamos com um amigo enquanto estamos sentados na mesa com os nossos filhos na hora de jantar.

Será que a arte de conversar está em crise?

Será a tecnologia o problema? Ou será a forma como a utilizamos que está errada?

Apesar de estarmos todos ligados pelas redes sociais, a grande maioria das pessoas sente-se sozinha. Essa sensação surge porque as conversas “cara a cara” são necessárias, os cheiros e os toques são necessários. A proximidade é necessária. Muitos jovens não sabem o que é uma conversa sem interrupções.

Sabemos que a tecnologia está aqui para ficar, com todas as maravilhas que traz, mas chegou o momento de considerar como ela afeta outras coisas que apreciamos. Um dos riscos, da tecnologia, é que podemos vir a perder uma qualidade essencial nas relações humanas: a empatia.

Sempre que nós consultamos o nosso telemóvel na presença de outras pessoas, estimulamos os nossos neurónios, mas ao mesmo tempo destruímos relações, sejam elas com amigos, cônjuges ou familiares.

Por vezes, é mais fácil escrever uma mensagem, é uma forma de nos escondermos e controlarmos melhor o que dizemos. Numa conversa, em que estamos presentes fisicamente, corremos mais riscos porque tudo o que dizemos é mais espontâneo e estamos mais vulneráveis.   

A tecnologia pode silenciar-nos sem darmos conta. O silêncio para connosco, com a nossa família e amigos, com o nosso parceiro, os nossos colegas de trabalho e com o resto da sociedade. Até os telefones, computadores e tablets nos ajudam a diminuir o contacto pessoal.

A interação digital atrai bastante, é a promessa de cumprir três de nossos desejos: vamos ser ouvidos, podemos prestar atenção onde e quando quisermos e que nunca teremos de ficar sós.

Grande parte da dependência dos dispositivos móveis deve-se ao fenómeno conhecido como ‘FOMO’ –fear of missing out – o medo de perder, é o que acontece enquanto estamos desconectados. Este fenómeno levado ao extremo, condena os usuários a fazer constantemente várias coisas ao mesmo tempo: consultar o telefone durante o jantar com a família, responder e-mails durante uma reunião, apagar mensagens no semáforo. Pensamos que somos capazes de realizar multitarefas ao mesmo tempo, mas na verdade o nosso cérebro move-se rapidamente de uma tarefa para outra e a nossa efetividade decai com cada coisa que acrescentamos.

As relações com as crianças são o maior perigo da tecnologia. Os menores aprendem que, façam o que fizerem, não conseguem atrair a atenção dos adultos que estão conectados. Vemos crianças que não conversam, mas também pais que não as olham nos olhos. A maneira mais realista de romper este círculo é que os pais assumam a sua responsabilidade como mentores, nós não temos que pedir aos nossos filhos que larguem o telefone, temos que dar o exemplo.

Todos podemos estimular esse regresso às conversas “cara a cara” dando pequenos passos, como fazer as coisas mais devagar, criar lugares “sagrados” em casa ou no escritório, onde não entrem os dispositivos móveis, ou convocar reuniões só para conversar.

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